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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Quando o fim aparece

Quando o amor acontece nunca se imagina que um dia também ele desaparece. Seria estranho pensar no começo pelo fim.
Talvez o ponto final não fosse tão triste se não houvesse o apego por tudo aquilo que se imaginou que poderiam ser e não foram. Difícil aceitar que para cada um “eu te amo sincero” existe um “eu não te amo mais” tão sincero quanto. Seria a pior das traições deixar que o infinito que já não faz bem para aquele que mais queremos bem se perpetue sem vontade.
Para se esquecer alguém o tempo é o melhor remédio.  A  verdade é que o tempo, aquele mesmo que matou sua relação também pode ser o responsável pela salvação de suas noites deitada sofrendo pensando “Será que por um instante de seu dia, você ainda pensa em mim?” Se a resposta para a sua filosofada noturna fosse sim, você certamente receberia notícias dele, mas se você ainda está lendo esse texto é porque a resposta é não. Não, ele não pensa mais em você.
Viva o luto do fim. Ele existe e deve ser vivido, com direito a músicas que embalaram seu romance e a releituras de cartas de amor. Após o triste dia do adeus chegou a hora de limpar a casa para que a saudade não vire assombração. Não é necessário atirar pela janela seu passado e sua história, mas guardá-lo aonde a saudade adormeça e não machuque é uma boa opção.

Não fique em casa esperando que as pessoas percebam que você precisa de companhia, certamente você deve pensar que ainda precisa viver o luto, quando pensar isso, já é a hora de você começar a sair de casa e ver gente.  Procure pessoas que encham seu tempo de novidades e de novas expectativas. Viajar, cortar o cabelo, começar um curso novo, são algumas das muitas  formas de você não trair a sua essência; viver.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Tenho uma regra sobre o primeiro encontro. Ele não passa do primeiro. Nada contra os encontros clichês em bares, cinemas e restaurantes, mas para que exista o segundo encontro é necessário que eu não perceba que passei pela primeira etapa de desvendar a intimidade alheia. Tenho preguiça de me apresentar e aquele silêncio constrangedor de duas pessoas procurando um tema para debater me deixa sem paciência. O momento que antecede o beijo é ainda mais difícil. Situação chata em que o cara resgata sua máxima coragem e que em casos extremos pede sua autorização para beija-la.
Eu não deveria me explicar, mas sinto a necessidade de compartilhar da minha fobia de encontros.
A noite pode até ser divertida, mas quando volto a minha zona de conforto, me esquece, dificilmente voltarei a batalha das mão dadas sem intimidade, do carinho sem afeto e do beijo sem frio na barriga.
Minha forma de ser é peculiar. Não nego, mas acredito em encontros sem serem marcados. Eles funcionam comigo e meu medo do outro se apaga por completo quando isso acontece.
Os moldes me assustam. Peço desculpas por essa minha regra tão infantil, mas sou tão confusa dentro de mim que acabo me perdendo no "vamos nos ver de novo." Quando essa frase chega eu já estou distante pensando na nova regra que me distanciará da intimidade e de compromissos que não consigo anotar na minha agenda.

Porta aberta. Ele irá deixa-la novamente.
Olhos fechados. O que você quer de mim?
Olhos nos olhos. Você pode nos ver? Acredito que não...
Roupas deixadas no chão. Agora você pode ir...
Calma! Temos todo o tempo do mundo.
Então ela pede o tempo...
É preciso a necessidade da liberdade respeitada. Viver um grande amor centenas de vezes e se descobrir apaixonada pela mesma pessoa. Palavras que se cumprem. Beijos novos, beijos calados. A cumplicidade do mesmo desejo.
Pássaro livre, de voos longos, tendo a certeza de um amor que ultrapassa tempos e tempestades.
Companhia de noites de silêncio, de dias de separações. De momentos de encontros e eterna lealdade.
Contrato invisível de duas pessoas que acima de tudo acreditam em um amor sem nome.
Raízes longas, folhas livres e frutos raros.
Foi tudo o que ela disse em pensamento antes de fechar a porta que a tempos estava entre aberta.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Ele chegou com todo o tempo que prometeu lhe dar. Deu seu relógio, mas a sufocou de lembranças e de beijos de espera. O tempo vencido envenenou seu querer e a fez perder o apetite de viver o que já era apenas passado.
Então veio outro. Trazendo em seus braços espectativas, presenteando a com um futuro que não lhe servia. Derramando beijos ansiosos e escrevendo histórias mornas,  nele ela apenas encontrou vontade.
O terceiro entrou em sua casa, sem pedir licença, com olhos de intensidade. Descontrolando sua solidão, invadindo suas confusões. Trouxe beijos novos, risadas e sorrisos. Mas vasculhou gavetas passadas, rotulou sentimentos. Enganou vontades. Sem carinho. A encontrou tão dona de sua solidão e a deixou apenas sozinha.
Outros vieram, tentando encontrar o mapa secreto de sentimentos tão escondidos dentro dela. Redescobrindo paixões, inovando sensações...mas neles ela só enxergou o vazio.
Então veio ele, com a calma de quem entende que o tempo da espera acabou. Respirou cada sensação de encontro e abriu a porta de caminhos que fariam da doce espera o desesperado reencontro. A encontrou de malas prontas e jogou fora com carinho uma bagagem que nunca lhe serviria. A deixou tão distraida que antes que ela dissesse não, invadiu seu coração.



quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Gaiola Aberta

Palavras repetidas que nunca mais foram ditas. Certezas que escaparam com o tempo. Fotos em que não consigo me encontrar.
Ando me traindo. Sendo aquilo que me nego a ser. Estou te traindo, me perdendo daquilo que sempre fomos. Procurando um título para aquilo que sempre caminhou sem nome, me descubro não tendo mais asas e te expulsando da minha história.
A realidade é que na bagunça dos meus caminhos eu não acredito mais na nossa liberdade nos prendendo. Deixo a porta aberta para se quiser voltar, o problema é que o caminho mudou e eu já não encontro nenhum lugar para pousar.


sábado, 9 de agosto de 2014

Quando a foto passa a ser apenas uma história que já não é mais relida. O que fazer com todas as certezas que agora estão guardadas na gaveta?
Muitos anos se passaram desde a primeira noite de sorriso sem motivo.
Se o passado bate incessantemente em sua porta é hora de trocar a fechadura e fechar a casa das memórias.
Ela pegou o que guardou do abraço apertado, do beijo calado e se perguntou se todos os tempos em que o tempo parou para eles continuarem por um novo caminho, não era na verdade o mesmo antigo modo deles caminharem sempre distantes um do outro.
Muitos anos passaram, muitos relógios quebraram e ela ainda lembraria da rua de promessas, das palavras desmedidas, do final feliz e da música trazendo ausência.
Atrás da porta deixou em segredo a chave de todas as suas chances desperdiçadas.
Se você for embora...
Se você voltar...
Se o meu tempo resolver parar de brincar...
Ela vai mentir. Vai dizer que desta vez já não precisa mais.
Irá perguntar se isso realmente importa. E a cada novo ato vai fechar as cortinas e esperar que aplaudam o final que ela impõe para a platéia cansada do mesmo ato repetido incansavelmente.
A cada trovão e tempestade feita em tempo seco, ela irá se culpar e se desculpar.
Quando o palco estiver vazio, vai dançar a solidão e brindar com suas lembranças o que poderiam ter sido e não foram.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Na casa da minha avó o quintal era grande. Os almoços de domingo terminavam com discussões fervorosas. Não tinha hora para dormir e muito menos para acordar. As brincadeiras duravam dias e o fim de semana tinha gosto de miojo e cheiro de bala de açúcar.
Os personagens dessa casa que hoje já não existe, eram muitos. Na mesa redonda da sala de jantar sempre tinha espaço para mais um e a escada vasada era o camarote para as crianças participarem das conversas dos adultos. Os protagonistas desse conto de infância eram quatro. Nós quatro. Primos e irmãos que dividiam segredos, histórias, fantasias, brincadeiras.
Hoje, sentados na mesma mesa redonda recordamos o que fomos. Não se fala do que somos. Cada um de nós guardou um pedaço de uma colcha de retalhos que foi a nossa infância. Minha prima criadora, meu primo só sorriso, meu irmão cuidados, eu sonhos. Éramos a mistura de uma família unida e dividida. Contraditória. Somos o resultado de finais de semana e férias juntos. São a minha história. A causa da difícil missão que foi crescer.
Sou a caçula. A última a saber que papai noel não existia. A primeira a seguir os três com total confiança. A herdeira de brinquedos e brincadeiras. A última a fechar a porta da nossa infância. Quando minha prima cresceu e disse que já não tinha idade para brincar, chorei. Choro com raiva da desilusão. E a promessa de que nunca cresceríamos? Ilusão. Das sopas feitas de plantas do jardim, dos filmes, jogos, esconderijos, gritos, guerras, aventuras, restaram quatro adultos totalmente diferentes. Seguimos caminhos opostos. Vivemos longe um do outro. Não existe mais almoço de domingo e os encontros duram três horas.
Quando eles se despediram da infância, um de cada vez, fui guardando comigo a promessa que eles não cumpriram. Não cresceria. Brinquei sozinha, tentando lembrar das histórias que me foram contadas e na minha ingenuidade de criança não percebi que o tempo passou e que eu também não pude cumprir a promessa.
Meu primo, dono de olhos que tem sorriso próprio, casou. No altar, lá estavam os quatro novamente. Dividindo nossas histórias mais uma vez. Minha família. Só a gente sabe a dor e a delícia de carregar o mesmo sobrenome. Somos o elo com o passado, os responsáveis por novos almoços de domingo e a certeza que a história de nossa família ainda vai longe. Meu amor dividido em três pessoas que formam um mosaíco cheio de momentos inesquecíveis.

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